terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Revista Monet - ed. Globo - Ed. 77
























texto de Arnaldo Branco

Invasão de privacidade

Muitos se lembram do vacilo do ministro Rubens Ricupero em 1994, quando o então titular da pasta da Fazenda confidenciou, no intervalo do Jornal da Globo, que não tinha escrúpulos. No mesmo ano, Galvão Bueno disse algumas coisas desabonadoras sobre Pelé durante as transmissões da Copa do Mundo. Muitos lembram também que nos dois casos o vídeo vazou para quem tinha antena parabólica em casa - mas o que ninguém sabe que é que os dois descuidos foram propositais.


Como muitos desconfiam, o mundo é controlado por um Poder Oculto, com idéias muito particulares sobre a inconveniência da imprevisibilidade. Os homens que decidem os destinos da humanidade procuram minimizar a possibilidade de catástrofes de dimensões apocalípticas através de experiências controladas de avaliação e redução de danos. A TV, aparelho de disseminação de propaganda, sempre se prestou a esse serviço.


Pois bem. Antes de 94 já se sabia que o futuro seria a aldeia global, a interatividade, a velocidade na troca de informações - e, principalmente, o fim da privacidade. No ano em questão a internet já existia - ainda não tinha o alcance e a capacidade de hoje, mas já mostrava todo seu potencial para agilizar a troca de idéias, inclusive de jerico, entre os homens. E se ao invés de ser aproveitada para a propagação do conhecimento, a rede mundial dos computadores fosse usada para o mal - por exemplo, para divulgar coisas comprometedoras sobre autoridades?


A Globo foi forçada a participar de um desses teste anti-caos e convulsão social, liberando o sinal aberto no intervalo de algumas transmissões para saber como a sociedade se comportaria diante da possibilidade de flagrar figuras de vulto em momentos de intimidade. A antena parabólica, espécie de captador doméstico de transmissões via satélite, daria a alguns espectadores o privilégio de acompanhar alguns formadores de opinião desavisados cometendo gafes em tempo real. Mas quais?


A direção escolheu Galvão Bueno porque o Brasil já estava acostumado a ouvi-lo falar besteiras diante do microfone e provavelmente perdoaria qualquer coisa que dissesse em off, e Ricupero porque parecia um sujeito comedido demais para falar alguma barbaridade ao vivo. Pois houve uma reversão de expectativas: o país finalmente concordou com alguma coisa dita pelo Galvão e o ministro que parecia um monge deu um show de indiscrição.


Ao redor do mundo, experimentos do mesmo tipo foram ministradas com sucesso, como a divulgação do grampo telefônico em que o príncipe Charles afirmava querer ser o tampax de sua amante Camilla. Todas demonstraram que o mundo estava pronto para a comunicação global: as pessoas simplesmente perderam a capacidade de ficar chocadas há muito tempo.

Revista Monet - ed. Globo - Ed. 76
























texto de Arnaldo Branco

Senor Bacharel

Todos conhecem Silvio Santos e os programas populares que comandou desde que fundou o Sistema Brasileiro de Televisão, o SBT. O que não se sabe é que o protótipo do primeiro desses programas não tinha nada de popular.

Tendo sido camelô - e uma rara exceção entre as vítimas da má distribuição de renda no Brasil a superar sua condição do excluído - Silvio Santos era muito sensível ao problema da educação e da mobilidade social. Quando finalmente pôde ter seu primeiro canal de televisão, chamou uma equipe de intelectuais e encomendou uma grade de programação dedicada a levar cultura para todos os brasileiros.

Tudo era pensado em função do valor didático/cognitivo. A sessão de cinema, por exemplo, foi batizada de "Cinefilia" e só passaria filmes europeus e japoneses - americanos, só se dirigidos por John Cassavettes e Andy Wahrol. Mas a pérola era mesmo o programa de auditório de Sílvio Santos, que seria conhecido como Domingo no Campus.

Seus quadros eram um primor. A atração que depois ficou conhecida como Roletrando se chamaria "Pró-mestrando", e sua roleta sortearia prêmios como bolsas do CNPQ e viagens guiadas ao Observatório do Valongo. Nem queira saber que tipo de equações matemáticas cada equipe tinha que resolver no segmento "Passa ou engrossa os índices de repetência?"

O Troca-Letra também era um jogo para tentar descobrir palavras ocultas em um painel, mas com aquela complexidade das Palavras Cruzadas de jornal que só nossos avós conseguem matar - muito em parte porque foram testemunhas dos eventos históricos sobre os quais esses passatempos sempre perguntam.

Show de calouros? Sintam o júri: os maestros Arthur Moreira Lima e Rogério Duprat (para abarcar as vertentes clássica e experimentalista da música erudita) e o Professor Mascarado, que era o membro escalado para fazer as críticas negativas e levar os tomates da platéia - que, pasmem, era interpretado pelo maestro Isaac Karabtchevsky, fazendo a maior questão de participar. A máscara era só para driblar seu contrato de exclusividade com a Rede Globo.

O programa deu errado na primeira edição. Apesar de selecionados entre as melhores instituições de ensino, todos os candidatos fizeram feio: os calouros não sabiam ler partituras, ninguém acertou nenhuma pergunta, não descobriram nenhuma palavra escondida. Silvio percebeu que seria uma roubada financeira apostar na inteligência ou no sistema educacional brasileiro, e mudou um pouco sua estratégia de mercado.




quinta-feira, 18 de junho de 2009

Revista Monet - ed. Globo - Ed. 75






















texto Arnaldo Branco

Suicidal Tendencies

Todos sabem que Jovem Guarda era um programa musical comandado por Roberto Carlos. Muitos também devem saber que Roberto tentou a sorte como cantor de bossa-nova antes de se decidir pelo rock romântico que o consagrou. Mas provavelmente ninguém sabe que o Rei teve uma fase intermediária dedicada a outro ritmo musical, e que a primeira versão do programa que dividia com Erasmo e Wanderléa seguiu essa onda.

No início dos anos sessenta, o gosto dos jovens era uma incógnita. Os Beatles estavam dominando as paradas internacionais, mas as novidades chegavam aqui com muito atraso e passavam por uma fase demorada de estranhamento - convenhamos, aqueles cortes de cabelo não ajudavam. Roberto Carlos tinha acabado de fracassar com seu primeiro disco e precisava encontrar um novo estilo que cativasse a juventude. Sua nova aposta: o bolero.

Parecia fazer sentido: depois de uma fase solar e ingênua com os barquinhos da Bossa Nova e as lambretas do rock ingênuo de Toni e Celly Campello, era natural um ciclo mais introspectivo, dark. Pelo menos nos Estados Unidos houve uma entressafra entre a primeira e segunda geração do rock'n'roll em que predominou a música folclórica, mais engajada e sombria e definitivamente menos hormonal. O Bolero pareceu a resposta latina a essa tendência de mercado.

Carlos Imperial, seu empresário, comprou a idéia e decidiu que deviam ter o respaldo de um programa de TV para lançar a tendência. Como não havia nenhum dessa espécie, resolveu inventá-lo. Batizou a atração de "Fossa Nova" e juntou os parceiros Roberto e Erasmo e mais a cantora adolescente Wanderléa para entoar canções de fracasso e desespero que, tinha certeza, iriam emplacar com a moçada. Para isso, pediu aos jovens compositores que fizessem uma música que fosse uma espécie de cartão de visitas do show.

Roberto e Erasmo puseram mãos à obra e escreveram uma canção de amor e suicídio chamada "O Calhambeque". Era uma versão rudimentar do grande sucesso que fizeram mais tarde, só que com andamento mais deprimente e, bem, com um suicídio no final. Contava a história de um rapaz que pegava um calhambeque na oficina e ia encontrar sua amada, que, em um gesto tresloucado, se atirava debaixo das rodas do veículo. A música terminava com o narrador achando que o carro estava com um problema de alinhamento, sublinhando a pungência da narrativa.

O primeiro programa foi ao ar em 1963 e durou exatos dois minutos: quando Roberto Carlos terminou de apresentar a orquestra e pendurou o acordeão para tocar o primeiro acorde, a transmissão foi interrompida para anunciar o assassinato do presidente Kennedy. Como a cobertura jornalística continuou pelo resto do dia, remarcaram para a semana seguinte a estréia do musical.

Mas nunca houve outra edição. A emissora entendeu que a realidade mundial, com a guerra fria, mísseis em Cuba e assassinatos de presidentes já estava mórbida demais. Em seu lugar estreou o programa de variedades "Belezuras de biquini", e a emissora sugeriu que Roberto Carlos e sua trupe voltassem quando tivessem alguma idéia para um programa mais animadinho.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Exposição Charivari no SESC Ribeirão Preto









Foi inaugurada no SESC Ribeirão, a exposição Charivari Desenhos.
A exposição fica no SESC até o dia 30 de maio.
A montagem foi feita pela Mariana Zanetti e por mim, junto com a equipe do Sesc Ribeirão.

Nas fotos, o espaço da Exposição,
a montagem,
a abertura da exposição,
Laura Teixeira, eu, Silvia Amstalden e Mariana Zanetti.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Revista Monet - ed. Globo - Ed. 74























histórias inventadas da TV - edição de maio

Texto Arnaldo Branco


Todo mundo sabe que Pelé marcou seu milésimo gol no dia 19 de novembro de 1969 e que, por uma feliz coincidência, o evento histórico se deu no Maracanã, então maior estádio do mundo e palco favorito do Rei do Futebol. O que ninguém sabe é que não foi exatamente uma coincidência.

A verdade é que as redes que detinham os direitos sobre a transmissão de jogos estavam determinadas a garantir que o gol do artilheiro do Santos saísse no Rio de Janeiro, não só porque os índices de audiência seriam maiores, mas porque os operadores de câmera concordavam que só os refletores do Estádio Mário Filho iluminaria com propriedade a dimensão épica do momento.

Pelé marcou o gol número 998 no Recife, contra o Santa Cruz, pela Taça Brasil. Ainda faltavam dois jogos até a próxima partida no Maracanã, contra o Vasco, e tudo indicava que o Botafogo da Paraíba e o Bahia iriam afrouxar a marcação em cima do Rei para disputar o privilégio de sofrer o milésimo tento. O que demonstra o quanto o futebol era mais romântico naqueles tempos - ou então que a tal Taça Brasil não valia absolutamente nada.

Uma estratégia de guerra foi montada no jogo contra o Botafogo-PB. Repórteres de campo receberam uma lista de apelidos que Pelé odiava para tentar irritá-lo durante suas investidas ao ataque. Não adiantou: Pelé marcou o gol 999 logo no primeiro tempo. Por sorte, o time adversário estava tão disposto a deixar o Rei fazer outro (em uma saída de bola o goleiro chegou a cobrar um tiro de meta em cima dele pra ver se a rebatida entrava) que o craque decidiu não manchar o gol mil com a suspeita de fraude. No segundo tempo, o goleiro santista simulou uma contusão e Pelé foi defender a meta em seu lugar*.

No jogo contra o Bahia, tudo de novo. Estrategicamente posicionados na arquibancada, funcionários da TV Soteropolitana usaram espelhos para refletir o sol no rosto de Pelé. Fotógrafos disparavam flashs toda vez que o camisa 10 do Santos se aproximava da linha de fundo - recurso ainda mais enervante porque a partida foi disputada durante o dia. De qualquer maneira, as câmeras não tinham filme.

Mesmo assim, não foi possível parar o Atleta do Século em um lance. Aos 26 minutos do segundo tempo, Pelé recebeu a bola, driblou o goleiro e chutou contra o gol aberto. A bandinha contratada pela diretoria do Bahia chegou a erguer o naipe de metais para tocar "A Copa do Mundo é Nossa", mas o zagueiro Nildo tirou em cima da linha, proeza que foi premiada com uma tremenda vaia de sua própria torcida e a demissão do jogador no dia seguinte*.

E assim Pelé pôde fazer o milésimo gol diante de 70.000 pagantes. E aquele pênalti, não sei não.

*Existem certas coisas que parecem invenção, mas são inacreditavelmente verdadeiras. Pode ir no Google procurar.


Revista Monet - ed. Globo - Ed. 73
























Texto Arnaldo Branco

Muitos se lembram, ou ouviram falar, da Miss Brasil Martha Rocha e de seu vice-campeonato no concurso de Miss Universo, em 1954, evento que mobilizava emissoras do mundo inteiro. Mas ninguém conhece a história por trás da decisão dos jurados de negar o merecido primeiro lugar ao Brasil.

A desculpa oficial para a derrota também é conhecida. A brasileira teria perdido por ter duas indesejáveis polegadas a mais - balela que rendeu até marchinha de carnaval ("por duas polegadas a mais nos quadris / tenha dó seu juiz") - embora tenha sempre sustentado que ninguém da produção do concurso tirou suas medidas ou explicou porque centimentragem das ancas era critério de desempate. Hoje em dia, com o advento da Mulher Melancia, parece até mais surreal.

Esse verdadeiro Marcanazzo da celulite calou fundo na alma brasileira, mas a verdade é que os motivos tinham menos a ver com estética e mais com razões de Estado. Vejamos.

Para começar, havia a ameaça comunista pairando, e desde o fim da segunda guerra mundial o governo americano adotava uma política de boa vizinhança para parecer para o resto do mundo que era a facção gente boa da guerra fria. A premiação de Miss Universo obedecia a um complicado sistema de rodízio para agradar países sob risco de revolução socialista, e em 54 a prioridade era da Colômbia - se a miss deles não fosse feia de doer. Como sempre acontecia em edições em que era impossível premiar a nação com situação política mais turbulenta, deram o cetro para a Miss América mesmo. Também é preciso lembrar que os Estados Unidos viviam o auge do Marcathismo, e pela ótica distorcida do Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas, eram um país em vias de adotar o comunismo.

Havia também a questão da inclinação ideológica da nossa representante. No questionário preparado pela CIA e que os membros do júri chamavam com falsa inocência de "Teste de conhecimentos gerais", Martha Rocha respondeu que sua cor predileta era rosa, seu livro de cabeceira Pollyana e que seu maior desejo era "a paz mundial". Podem parecer respostas banais, mas o cruzamento dessas informações pelo processador IBM da Inteligência Americana apontou uma "simpatia residual à utopismos exóticos".

No fim das contas foi bom para Martha Rocha: voltou pro Brasil com status de musa martirizada, virou musa do surto desenvolvimentista brasileiro e sobreviveu ao Macarthismo e à guerra fria - e para testemunhar o surgimento da Mulher Melancia.

Revista Monet - ed. Globo - Ed. 72
























Texto Arnaldo Branco

Todos sabem como a cobertura televisiva da Guerra do Vietnã foi fundamental para o fim da mesma: as imagens chamaram a atenção para o absurdo do conflito e transformaram os correspondentes de guerra em heróis. Mas poucos conhecem o episódio do repórter brasileiro que foi na contramão da História e forjou todas as suas matérias, de uma distância segura do alcance das bombas de napalm.

Oriovaldo Canela era correspondente da TV Record em Paris em 1967. Maio de 68 ainda estava adiante na curva, e seu trabalho consistia basicamente em cobrir as novas modas e a nudez eventual de Brigitte Bardot em prol da ecologia. Mas essa rotina de champagne e croissant acabou quando a emissora decidiu transferí-lo para o Vietnã quando a guerra engrossou.

Era uma medida de economia, já que Oriovaldo era o jornalista da Record mais próximo da zona de conflito e porque imaginavam que em um país subdesenvolvido, sem Maxim's e Chanel, ele não teria como manter a mesma média de dois mil dólares em despesas extras. Mas o correspondente não deixou Paris sem resistência.

Confessadamente covarde, Oriovaldo tentou fugir da tarefa alegando que tinha alergia a mosquito e baixa resistência a climas úmidos. Mas a emissora insistiu. Foi aí que bolou seu plano de fuga perfeito. Com a cumplicidade do câmera Marcelo Figueirinha, pegou o primeiro avião para Aruba e passou a transmitir de lá como se na guerra estivesse.

Usando como fundo as palmeiras do deslumbrante paraíso caribenho, Oriovaldo falava ao microfone em um tom grave para dar os números de baixas no exército americano e vietnamita, recebidos por telex em sua suíte presidencial no Hotel Ambassadour. Alguma edição tosca com material de documentários e filmes de guerra foi necessária para parecer que o Oriovaldo testemunhava uma carnificina nas reportagens que enviava para o Brasil.

Certa vez tropeçou durante uma festa em uma boate local e teve que fazer um curativo na testa. Para dar dramaticidade, disse para o pessoal da emissora que tinha sido atingido por um estilhaço de granada, mas que não iria contar isso para os telespectadores para não parecer que estava "querendo tirar partido da situação trágica no Vietnã do Norte". Mas é claro que as imagens do repórter com a cabeça enfaixada geraram especulações sobre o risco que estava correndo em lugar tão perigoso. Cogitaram seu nome para uma futura condecoração por bravura.

A farsa foi descoberta quando Figueirinha, por descuido, filmou (e não apagou na edição) um guarda-sol, no fundo de cena de uma matéria que em tese se passava em Khe Sahn. E também porque as despesas extras de Oriovaldo triplicaram.

Revista Monet - ed. Globo - Ed. 71
























Texto Arnaldo Branco


Alguns se lembram do Teatrinho Troll, programa da TV Tupi em que o ator recém-falecido Fábio Sabag dirigia peças infantis com grande elenco - mas ninguém sabe sobre os bastidores do fim da série em 1966. Pudera: o episódio do Teatrinho que provocou o cancelamento nunca foi transmitido, proibido pelo governo militar.

Pode parecer estranho que um programa conhecido por apresentar fábulas de Esopo com atores vestidos de bichinho tenha sofrido alguma sanção da ditadura. Mas a verdade é que os roteiristas desse episódio específico (Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri) resolveram escrever o texto de oposição mais radical jamais encenado no Brasil, e tentaram usar o show para crianças para burlar a Censura Federal.

Os dois escritores eram visados por militarem no teatro de esquerda e sentiam que não tinham espaço para dizer o que realmente pensavam sobre o governo e a falta de pescoço do presidente Castelo Branco. Com dificuldade para trabalhar sem atrair a atenção dos censores, resolveram aceitar o convite para escrever para o Teatrinho. Foi quando tiveram a idéia de usar as habituais bruxinhas, coelhinhos e fadinhas para mandar uma mensagem para Brasília.

Primeiro pensaram em adaptar para a gurizada alguma peça para adultos que servisse como metáfora da situação política. Chegaram a cogitar Édipo Rei - Laio seria o Rei mau, Édipo o Principezinho Herdeiro, etc - mas acharam que talvez os pais encrencassem com o incesto e tal. Decidiram por um texto original: "A longa noite dos anos de chumbo do Reino Encantado da Belíndia".

Em Belíndia, o Rei era um sapo (uma menção não muito sutil à tal falta de pescoço, representado por um Lúcio Mauro quase sem maquiagem) que usurpou o trono graças ao apoio de um bando de gorilas. O sistema pluripartidário foi substitúido por outro com apenas dois grupos políticos: as antas (situação) e os patos (oposição). A democracia em falta no Brasil era simbolizada por um anel mágico presa no rabo de um boi vestido de mulher e exilado no Reino de Uruguaiana, representação dramática bastante grosseira de Leonel Brizola.

A trama girava em torno da saga dos patos atrás do anel, e das cisões no grupo entre os que achavam que tinham que conquistar o artefato na base da bicada (menção óbvia à luta armada) ou através da conscientização do resto do mundo animal. Em uma cena, Tarcísio Meira, caracterizado de pato-líder radical, tentava demover os outros da idéia de apelar para a diplomacia: "É tudo um bando de mula alienada! O lance é meter os peitos!"

Não admira que o show não tenha passado pelo órgão de controle da programação, e que a emissora tenha cancelado o Teatrinho Troll com medo de represálias. Mas eram tempos menos sombrios que os que viriam depois da promulgação do AI-5, em 1968. No parecer sobre o episódio, o censor escreveu apenas uma pequena nota: "Boa tentativa".

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Revista Monet - Ed. Globo - Ed.70














Texto de Arnaldo Branco

Todos sabem que a primeira transmissão via satélite da TV mundial mostrou os Beatles tocando All you need is love. Mas poucos lembram qual foi a primeira transmissão via satélite a partir do Brasil: uma tentativa de repetir a façanha dos rapazes de Liverpool com um time de ídolos da música nacional. Marx disse que a História se repete como farsa, mas o cara não conheceu o star system brasileiro: aqui a História se repetiu como drama e pastelão.

Primeiro, houve conflito quanto a escolha do nome dos envolvidos no projeto. O ano era 1969, uma época de polarização e piadinhas de duplo sentido, e não era possível convidar para a mesma mesa de mixagem determinadas figurinhas da MPB. Por exemplo, Tom Zé tinha acabado de publicar na revista de polêmica e discórdia Digressão o artigo “NaziTropicalismo”, em que rompia com o grupo baiano e pedia dinheiro emprestado para João Gilberto.

Curiosamente Caetano Veloso, o porta-voz do Estado-Maior baiano, não vetou Tom Zé na gravação (”Tom transcende, Tom procede”), mas Geraldo Vandré, que estava mesmo no exílio e nem soube do projeto. O grupo formou com Caetano, Gil, Tom Zé, Chico Buarque, Elis Regina, Juca Chaves, Jararaca e Ratinho. A dupla caipira foi chamada para evitar acusações de elitismo e do projeto não respeitar as raízes da música brasileira, mas os dois só tocaram chocalho na transmissão.

Aliás, esse foi um dos problemas enfrentados pela produção: a oposição dos tradicionalistas, que achavam um absurdo que uma banda de primeiro time do Brasil se sujeitasse a tocar um rock inglês, ainda mais um com tão poucos acordes (praticamente Sol, lá com sétima, ré com sétima). A solução foi a versão em português que Caetano compôs, intitulada “Tudo que você precisa é de amor” e subintitulada “…e um pouco de compreensão humana, peixe com coco, fitinha do Bonfim, cuca legal e pelo menos um disco do Caymmi, aquele que tem um pescador de chapeuzinho na capa”.

Mas a versão na língua pátria acabou causando transtornos também. Na véspera da transmissão, no programa Flávio Cavalcanti, o infame apresentador tocou a música ao contrário durante o quadro “Qual é a mensagem satânica?”, em que chamava especialistas para descobrir recados do demo escondidos nos discos. Um filólogo disse que o som embaralhado que saiu das caixas de som se assemelhava a “Entrem para a luta armada” em úmbrio arcaico, mas foi questionado por um advogado convidado sobre a utilidade de se usar uma língua morta para passar ordens do capeta.

A transmissão em si decorreu sem maiores transtornos, apesar de Tom Zé ter tocado nu, com um funil nas partes pudendas, em protesto contra o fato de Caetano ter sido paternal com ele.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Docol Magazine - Ed. Spring - Ensaio Ilustrado































































Feito em parceria com meu irmão, Daniel Almeida.

Capa revista Cavallino ed. 4 anos



http://www.revistacavallino.com.br/

Revista Monet - Ed. Globo - Ed. 69














Texto de Arnaldo Branco

Todo mundo na época (1981) acompanhou o casamento do Príncipe Charles com Diana Spencer e lembra que a transmissão durou quase um dia inteiro. Foi provavelmente a tomada mais lenta de uma carruagem percorrendo um trajeto curto desde os filmes de época da nouvelle vague. Mas o que poucos sabem foi o trabalho que deu às equipes de TV da época para evitar mostrar uma série de acontecimentos bizarros, portanto típicos de um casamento.

O atraso de praxe da noiva, por exemplo, aconteceu porque até a última hora os advogados de Diana negociavam cláusulas do acordo pré-nupcial, que estabelecia limites para o uso de fixador no cabelo de Charles e proibia terminantemente que o herdeiro do trono levasse para a banheira sua coleção de barquinhos em homenagem à Frota Real Inglesa. Mas apesar das câmeras terem flagrado a princesa assinando os últimos papéis já na escadaria de sua casa, indo em direção ao coche, uma ordem disparada pelo Palácio de Buckingham fez com que os telejornais descrevessem aqueles homens de terno e pastas 007 como “caçadores de autógrafo”.

Na hora da tradicional e simbólica pergunta do padre “se alguém tiver algo contra essa união, que fale agora ou se cale para sempre”, foi necessário desligar a câmera 23, que captou Camila Parker Bowles, a namorada horrorosa preterida por Charles (por pressão da família e não por bom senso, infelizmente) se levantando para mostrar uma carta em que o Príncipe, naquela época ainda tímido em suas declarações para a baranga, dizia “quero ser o seu descongestionante nasal”.

Mas as emissoras de TV mostraram com ênfase sua retirada da catedral de St. Paul, depois de, fora do alcance das câmeras, ter recebido um golpe de clava de um agente da Scotland Yard. Todos os comentaristas de casamento (na Inglaterra um cargo de importância, graças aos tablóides) falaram sobre o desmaio de uma fã emocionada do casal - mas o enviado especial da Rede Globo, Clóvis Bornay, por dentro dos babados, soltou um “cala-te boca” no ar seguido de risinhos abafados.

Durante os cumprimentos, um cavalariço que tinha conseguido se passar por Conde (na era Tatcher os títulos de nobreza tinham barateado e era difícil distinguir uma falsificação) beijou demoradamente a Princesa na boca. Não foi possível evitar a filmagem da cena, mas Charles pensou rápido e também beijou o cavalariço, inclusive inclinando o sujeito à maneira dos apaixonados. O narrador oficial da cerimônia disse que se tratava de um costume do condado e todo mundo caiu nessa. Mais tarde esse trecho da gravação foi confiscado a pedido da Família Real.

Ninguém sabe, mas pelos bons serviços prestados, o diretor de jornalismo da BBC que coordenou a cobertura do evento foi condecorado pela Rainha com a Ordem Secreta do Sigilo Colaboracionista, a honra máxima que pode aspirar um profissional chapa-branca da imprensa.

Revista Monet - Ed. Globo - Ed. 68
























Texto de Arnaldo Branco

Quando Fernando Collor de Melo ganhou a eleição, em 1989, muitos estranharam que um sujeito evidentemente perturbado tivesse iludido 33 milhões de eleitores. Assim como várias pessoas até hoje tentam entender como a novela Carrossel conseguiu audiência considerável quando foi exibida pelo SBT. Mas o que ninguém sabe é que a explicação desses dois fenômenos é a mesma: mensagens subliminares.

Ninguém, a não ser talvez adeptos de teorias da conspiração, leva a sério o tema. Mas as mensagens subliminares existem, têm um importante papel na história da TV brasileira e explicam muita coisa. A passividade do brasileiro, por exemplo: durante a última entrevista coletiva com Dunga definindo a escalação da seleção brasileira, os televisores exibiram em intervalos regulares de microsegundos - imperceptíveis para o olho humano, mas registráveis pelo cérebro - a legenda "CALMA". E, eventualmente, o conselho "NÃO FAÇA NADA DE QUE POSSA SE ARREPENDER DEPOIS".

Se em 1964 ninguém pegou em armas para tentar impedir o golpe militar em curso foi porque - entre outras particularidades da conjuntura nacional - programas de TV favoráveis ao levante, como o de Hebe Camargo, Flávio Cavalcanti e do Palhaço Carequinha fizeram passar o letreiro piscante "JÁ ERA, COMUNAS" durante suas transmissões. Muitos militantes de esquerda e simpatizantes do governo João Goulart lembram de uma leve sensação de desânimo e da perda temporária de suas convicções políticas. Quando se recuperaram do torpor, a TV já exibia a leitura do Ato Institucional número 2 (acompanhado da mensagem nas entrelinhas "É ISSO AÍ MESMO") e era melhor correr e se esconder.

E há vários outros exemplos da interferência do tubo catódico no curso da História. Por exemplo, muitos recordam um certo sentimento de esperança idiotizada na época da eleição de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral. A explicação está no vencimento da concessão dos militares para governar o Brasil junto às redes de televisão, que repassaram o direito de exploração de imagem para a Frente Liberal, coligação dos partidos de oposição com os dissidentes dos partidos da situação. A legenda mais exibida na época nos aparelhos televisores era "ESPERANÇA", daí a crença desmedida em tudo, inclusive na versão de que a doença do presidente recém-eleito era uma bobaginha qualquer no divertículo de Merkel.

Revista Monet - Ed. Globo - Ed. 67
























Texto de Arnaldo Branco

Todo mundo já viu as imagens do Homem na Lua, e muitos sabem das pessoas que não acreditam até hoje que elas são de verdade - teriam sido forjadas pela a) CIA b) Ditadura Militar c) Rede Globo. Mas o que ninguém sabe é que a alternativa c) é quase correta.

A transmissão via satélite era uma novidade recente (o primeiro evento testemunhado simultaneamente pelo planeta tinha sido uma apresentação dos Beatles antes da ação deletéria da Yoko Ono) e sujeita a falhas. Havia um delay entre as imagens recebidas do espaço pela Nasa (e por países com sistemas de captação de sinal mais avançados) e localidades com tecnologia incipiente na área. A transmissão chegava com um pouco de atraso para, por exemplo, a América Latina.

O sinal caiu logo depois que os telespectadores do hemisfério norte viram Neil Armstrong, primeiro homem a chegar a superfície da Lua, fazer uma embaixadinha com um rochedo e chamar os comerciais. As emissoras que não receberam o vídeo da aterrissagem entraram em pânico: havia o risco da transmissão só ser reestabelecida depois que os astronautas estivessem de malas prontas, voltando para a Terra. O problema chegou até o principal responsável pelo marketing do programa espacial americano, o coronel Thomas T. Disturbing, que fazia questão que a vitória dos EUA sobre a União Soviética repercutisse o máximo possível.

O coronel Disturbing convocou em caráter extraordinário uma comissão de diretores de emissoras que não receberam o sinal, e deixou claro que seria fundamental que exibissem alguma espécie de transmissão falsa, até que o videotape com a filmagem do sucesso da missão chegasse. Não importa que a farsa destoasse muito da coisa real - contava com a falta de videocassetes e do Youtube para que o público esquecesse que testemunhou ao vivo um evento completamente diferente do que o Cid Moreira iria apresentar mais tarde, no Jornal Nacional.

Os diretores reunidos chegaram a pensar em simplesmente filmar a imagem estática de um cartaz promocional do filme "As areias de Iwo Jima", com a reprodução da famosa foto de soldados americanos fincando sua bandeira no atol japonês, mas as pessoas estranhariam a falta de trajes especiais e a presença do John Wayne. A solução encontrada pela força-tarefa foi reencenar a descida dos tripulantes da Apolo 11 nos estúdios da Rede Globo, mais bem aparelhada para o trabalho.

O cenário usado foi o set abandonado de "Areias Escaldantes", novela de Janete Clair sobre touradas. Só precisaram livrar a falsa Plaza de Toros da arquibancada cenográfica e da rede de vôlei que os funcionários do estúdio deixaram ali para relaxar entre as gravações. O módulo lunar (a cápsula em que viajavam os astronautas) foi improvisado a partir de uma câmera de TV desativada - as da época tinham o mesmo tamanho. Já a bandeira americana que seria cravada no novo território conquistado foi emprestada por um manifestante da UNE que a estava guardando para queimar depois.

E ninguém sabe, mas o homem que fez o papel de Neil Armstrong foi o comediante Tutuca. O diretor de elenco Malvino Worthsales deu graças a Deus pelo visor em vidro fumê do capacete espacial - o uniforme foi reaproveitado do episódio "Invasão alienígena", da série do Capitão Asa. Famoso pelo bordão "Ah, se ela me desse bola!", o irreverente Tutuca ameaçou várias vezes tirar o capacete durante as filmagens e fazer uma de suas habituais caretas.

Foi um pequeno passo para um homem, mas um grande salto para a Cultura de Massas. Da próxima vez, dê mais crédito para teorias da conspiração.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Folhear a Charivari #2 - Vídeo de Andrés Sandoval

Charivari

foto Isabel Falleiros
foto Isabel Falleiros
foto Luana Geiger
A Capa e meus trabalhos na publicação CHARIVARI #2 (http://chari-vari.blogspot.com.br), projeto coletivo de ilustradores e artistas plásticos que, nesta edição, foi patrocinado pela Petrobras com realização da Funarte e do MinC.

Revista Monet - ed. Globo - Ed. 66
























Texto de Arnaldo Branco

Muitos sabem dos incêndios que destruíram prédios das TVs Globo, Record e Tupi nos anos 60 e 70. Ou deveriam saber, já que o Video Show fala deles periodicamente, talvez para aliviar a barra do pessoal do Arquivo, que até hoje deve receber pedidos de velhinhos ansiosos por rever imagens das novelas da Gloria Magadan. Alguns também sabem que os sinistros estiveram sob suspeita - desconfiava-se que eles teriam sido provocados pelo dinheiro do seguro. Mas ninguém conhece a verdade: os incêndios foram criminosos sim, mas o único responsável por todos eles era apenas um romântico cineasta alternativo.

Kleber Lang (nome artístico que denunciava suas inclinações estéticas e enorme pretensão) achava a concorrência da TV nociva ao cinema, especialmente ao seu, que, como escreveu na revista de "polemização cinemática" O Lanterninha, "obriga as pessoas a pensar". A frase pode ser tomada em seu sentido literal se lembrarmos que em 1965 Kleber coagiu o público (3 pessoas) que havia terminado de assistir seu "Varapaus dos Confins" a permanecer na sala de exibição para debater o filme, com um revólver. Dois dos membros da platéia tiveram um colapso nervoso: eram apenas moradores de rua que entraram no cinema para dormir durante a sessão e não sabiam responder as perguntas de Kleber sobre suas intenções artísticas em determinadas cenas.

Embora a TV já estivesse no Brasil desde os anos 50, Kleber desconfiava que o aumento do números de aparelhos televisores vendidos fosse obra do governo militar para enfraquecer o movimento cinematográfico da época. Afinal, achava que os cineastas ofereciam maior resistência a ditadura do que, por exemplo, a MPB, só que o governo seria muito burro para perceber - e às vezes, o público também. Chegou a afirmar em uma entrevista que fez consigo mesmo e ofereceu para o Pasquim (recusada): "Sou muito mais oposição que o Chico Buarque. "A Banda" é uma música militar!"

Kleber chegou a planejar um ataque simultâneo às três emissoras, mas temia chamar mais alguém para a empreitada e comprometer o sigilo necessário - tinha medo de ser preso e torturado, mormente porque era alérgico. Primeiro pôs fogo nos estúdios da Record, em 1968, depois de se infiltrar através de um estágio no setor de jornalismo. Antes do ato de sabotagem chegou a propor uma pauta (recusada) sobre a confraria de cineastas em que militava, os Ladrões de Bicicleta. Nem todos entendiam a referência ao filme de Vittorio De Sica, e às vezes o grupo ia parar nas páginas policiais.

O fogo na TV Record foi seu único relativo sucesso. A rede já vinha mal das pernas e o incêndio começou uma crise que resultou em posições inferiores nos rankings de audiência, mas ela continuou no ar. Outra vez o medo da prisão e consequentemente dos fungos e bactérias falou mais alto e sua segunda incursão como incendiário só se deu em 1975, quando achava certo que uma ação não seria ligada à outra. Desastre total: a Globo se fortaleceu depois do incêndio - precisava mesmo se livrar de equipamentos obsoletos e renovar a decoração do prédio. Sua última tentativa foi em 1978, com o atentado aos estúdios da TV Tupi. Desta vez deu certo: em dois anos a cambaleante emissora estava fechada.

Mas o ímpeto de Kleber já não era o mesmo. Os Ladrões de Bicicleta tinham se dispersado e ele estava desiludido com a recepção da crítica a "Elas gostam por cima", uma pornochanchada feminista. Consta que tinha mesmo acompanhado uma novela inteira, Gabriela, "apenas pelo viés sociológico", explicou para sua mulher que desconfiava mais do viés das calcinhas da Sônia Braga. Por fim se rendeu e arrumou um emprego na TV Globo. Está lá até hoje, usando outro nome artístico.

domingo, 17 de agosto de 2008

Revista Você S/A - Ed. Abril - Ed. 122






Revista Monet - Ed. Globo - Ed.64

























Texto de Arnaldo Branco

Todos sabem que o Brasil ganhou a final da Copa do Mundo de 1970 (a primeira a ser televisonada aqui) em um inquestionável 4 X 1 sobre a Itália, e alguns devem lembrar que o general Emílio Garrastazu Médici adivinhou o placar. Mas o que muitos desconhecem é a história do homem que soprou esse resultado no ouvido do então presidente da república.

Severino Clevert, vulgo Pai Goriot (além de médium, leitor de Balzac) era o guia espiritual de Médici. É de se estranhar que o general contasse com os serviços de alguém que podia prever o futuro e tenha feito tão pouco por sua posteridade, mas a verdade é que já no ano seguinte à vitória brasileira no México, o general deixou de consultar Severino, parece que assustado com sua previsão sombria para o próximo inverno: veludo cotelê iria entrar na moda.

Severino seguiu fazendo previsões para seus clientes famosos. Alertou o ministro da Fazenda Delfim Netto sobre a crise do petróleo de 1973 - mas homens do setor da economia também se acham possuidores de poderes premonitórios, os prognósticos resultaram conflitantes e o Brasil se ferrou nessa. Outro de seus clientes era o técnico Zagalo, na época ainda com um L só e mais moral para sermos obrigados a engolí-lo, mas o velho Lobo dispensou o trabalho de Severino por ocasião da Copa de 1974. Não precisava de um adivinho para saber que o Cruyff era melhor que o Mirandinha.

Dando consultoria internacional, previu para Jimmy Carter a vitória em 76, mas se absteve de entrar em detalhes sobre seu governo para evitar renúncia antes mesmo da eleição. Pensou estar poupando os Estados Unidos do trauma de ter dois presidentes desertores em menos de dois anos, mas acabou ajudando por tabela a escalada de Reagan, da Guerra Fria e do Phil Collins, por conta de uma conjunção astral paralela. Resolveu só operar no Brasil mesmo, onde achou que o estrago poderia ser menor.

Severino estava errado. Lendo o futuro para um eminência parda do PDS extremanente sensível a esses assuntos, previu para 82 a derrota da Seleção Brasileira de Telê Santana e a vitória de Brizola no Estado do Rio - de presto levou um cacete respeitável. Quando os dois resultados se concretizaram o político o procurou para pedir desculpas, se oferecer para pagar as despesas hospitalares e consultá-lo sobre se deveria se filiar ao PDT.

A partir daí Severino decidiu aposentar seus dotes de profeta. Toda vez que um pressentimento assalta sua mente, tapa os ouvidos e fica fazendo barulhos infantis (tipo bluá bluá bluá) com a boca até que o surto visionário passe. Nunca mais teve problemas decorrentes do seu dom maldito, mas não consegue passar mais de dois dias sem ouvir alguém recomendar um neurologista e sua vida social acabou.


Revista Monet - ed. Globo - Ed. 65
























Texto de Arnaldo Branco

Todos sabem do sucesso recente no Brasil de formatos televisivos consagrados há mais tempo no exterior: o reality show e os programas de pegadinhas estilo Candid Camera. Mas poucos sabem de um projeto que não passou de algumas edições misturando essas atrações com um tipo de programa que sempre esteve em voga por aqui: o de debates.

Desenvolvido pelo antropólogo Onestaldo Antunes para a produtora independente Terceira Visão, o show Manhattan Jackass misturava os conceitos de troca de idéias com o de troca de cabeçadas. Havia mesmo um quadro em que os debatedores, usando capacetes, interrompiam a argumentação e partiam para cima um dos outros à maneira dos antílopes para decidir o vencedor. Mas não era só isso.

Um dos segmentos do programa se chamava Hora do Coringa. Nele, os participantes de uma roda viva precisavam descobrir quem entre eles seria na verdade um impostor. Todos os palestrantes eram apresentados como especialistas de áreas completamente diferentes do pensamento e incentivados a discutirem até descobrir qual deles era na verdade um mecânico de automóveis, ou ajudante de pedreiro. Claro que, como as aferições do intelecto são relativas, muitas vezes os debatedores concluíam que havia pelo menos um cinco farsantes na mesa, o que deixava vários experts com os egos feridos.

Outra idéia controversa do programa era a seção Falar é fácil. Nela, formadores de opinião eram obrigados a provar na prática suas teorias. Nos poucos programas filmados tentaram a participação de intelectuais famosos, mas Arnaldo Jabor se recusou a presidir uma sessão da câmara dos deputados para tentar botar em discussão a reforma política, e Juca Kfouri preferiu não aceitar ser técnico de um time da terceira divisão do campeonato paulista para tentar mostrar de uma vez como o trabalho deve ser feito, afinal. E quase terminou em tragédia a tentativa de um partidário do desarmamento defender sua tese em uma boca de fumo.

Ainda mais provocativo era o Hora da verdade, em que câmeras escondidas na casa de um determinado pensador mostravam se tinha comportamento condizente com o que defendia em livros e simpósios. Foram flagrados uma sexóloga ruim de cama e um palestrante motivacional com tendências suicidas. Mas se safaram um escritor da nova geração e um crítico de cinema que se mostraram tão chatos na sua rotina diária quanto em suas exposições.

Manhattan Jackass na verdade nunca foi ao ar. A Terceira Visão nunca conseguiu negociar seus 12 episódios (meia temporada inteira) e cancelou o projeto. Onestaldo Andrade, que investiu seu próprio dinheiro, perdeu tudo e chegou a mendicância, mas nunca se entregou - agora tenta vender a idéia de uma Liga de Ultimate Fight de moradoras de rua.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

caderno de desenhos





Revista Monet, 63 - Histórias (inventadas) da Televisão

























Texto de Arnaldo Branco

Muitos lembram do palhaço Bozo, e alguns do famoso trote que levou nos anos 80, de um garoto que sugeriu ao vivo que o apresentador fantasiado experimentasse a conjunção carnal passiva com palavras menores, sendo a última terminada em u. Mas poucos sabem que o garoto (Marcos dos Prazeres, oito anos na ocasião) continuou sua carreira na interatividade com programas de TV que costumam abrir seus telefones ao público.
Já adolescente, alguns anos depois da sua façanha mais conhecida, foi exorcizado em rede nacional em um programa evangélico porque ligou não só afirmando estar possuído pelo Demônio, mas que Ele o obrigara a fazer a chamada a cobrar. Os produtores do programa "Jesus na Linha" lembram que Marcos foi tão convincente que todas as ligações depois foram de irmãos em Cristo apavorados com a manifestação do Diabo e de irmãs querendo saber se os atendentes tinham o telefone do possuído.
Uma ligação importante em sua coleção foi a que fez para a produção do Jornal Nacional denunciando um suposto atentado com medicamentos laxativos no refeitório da TV Globo. Esse quase acaba em tragédia porque um contra-regra com Síndrome do Colo Irritável e bastante vulnerável ao poder da sugestão imediatamente sofreu uma crise intestinal que despertou o pânico em seus colegas nos bastidores do telejornal. Baldes foram providenciados e a transmissão seguiu sob o signo da tensão nervosa. Cid Moreira teria demaiado depois do Boa Noite e nas semanas seguintes membros da produção, em reação natural do organismo, apresentaram sinais de prisão de ventre.
Também entrou ao vivo certa vez com uma imitação canhestra da voz de Pelé e fez comentários sobre a partida em curso, América Ferroviário contra Santos de Barreirinha. Os locutores da TV Itumbiara, provavelmente levados pela emoção de uma participação especial tão ilustre, não perceberam que a pessoa que dizia ser o rei do futebol tinha dificuldades para segurar o riso e parecia estar ligando de um telefone público. Mas é possível que tenham se deixado enganar porque todos os comentários que fez, como os do verdadeiro Édson Arantes do Nascimento, resultaram equivocados.
Sua ação mais ousada foi uma tentativa de participação no Ligação Direta (a ironia do nome do programa não deve ter escapado de sua personalidade pândega) fingindo ser um sequestrador ligando do cativeiro. A Globo chegou a mobilizar uma equipe da polícia para rastrear a chamada e tentou obter autorização para mediar as negociações do resgate, negada porque os investigadores acharam prudente não deixar a responsabilidade sobre vida de um inocente nas mãos de uma pessoa jurídica. Marcos quase conseguiu seu intento, mas foi denunciado pela voz de sua mãe perguntando ao fundo se queria mais cachorro-quente.
Marcos dos Prazeres morreu enquanto tentava conseguir socorro por telefone durante um ataque cardíaco.

Revista Monet, 62 - Histórias (Inventadas) da Televisão

























Texto de Arnaldo Branco

Muitos lembram de Roque Santeiro, a novela da Globo que em 1985 teve piques de 99% de audiência. Ficou famosa pelo triângulo amoroso entre o personagem-título (José Wilker), a viúva Porcina (Regina Duarte) e Sinhozinho Malta (Lima Duarte) e por todo seu elenco ter saído na Playboy, com exceção do Ewerton de Castro.

Mas poucos lembram de sua concorrente, detentora de 0,00001% da audiência (a maior parte dos 1% restantes ficava com o SBT, reprisando Chaves), a novela "Ventos da Mudança", que passava na Bandeirantes ou na Record, os pesquisadores ainda não descobriram. Foi escrita pelo dramaturgo de esquerda Adelmo Pederneiras e seu fracasso pode ser explicado não só pela quase unanimidade de Roque Santeiro, mas também por estranhezas de sua própria trama.

Para começar, não havia um núcleo pobre e outro rico porque Adelmo não acreditava em uma sociedade de classes e porque a emissora poderia economizar em locação se não precisasse filmar em favelas ou em mansões cenográficas. "Ventos da Mudança" comentava a vida política nacional. O vilão da história, um verdureiro bigodudo, impotente e metido a poeta que herdou a quitanda depois da morte do sócio, um velhinho narigudo amado por todos, era uma alusão depreciativa e pouco sutil ao presidente José Sarney, que só não tomou nenhuma providência legal por desconhecer a existência da novela assim como 99,99999 % da população.

O elenco era um compêndio de erros de escalação. O galã era Lúcio Mauro, conservado para a idade, mas não do ridículo, e Gretchen fazia uma bailarina clássica. O assassinato costumeiramente usado em novelas para movimentar a história também não conseguiria interessar ninguém: o morto era um posseiro, personagem secundário que aparentemente só serviu para justificar os discursos pela reforma agrária na cena do enterro, que durou um capítulo inteiro. O assassino, para de surpresa de ninguém, era o verdureiro (Elias Gleizer), que confessou seu ato torpe retorcendo o bigode para enfatizar a natureza vil de seu personagem e por extensão, da Nova República.

A novela não teve problemas com a censura, e não só porque ninguém no governo tomou conhecimento de sua transmissão, mas também porque Adelmo, como muitos dos seus colegas revolucionários, era tremendamente conservador, sexualmente falando. Os beijos em cena eram cronometrados e o personagem de Gretchen era virgem - o dramaturgo teve que interromper várias cenas porque a atriz insistia em dizer as falas com um dedo na boca, "um truque de interpretação" como declarou na época à revista Fon-Fon.

"Ventos da mudança" seguiu sua rotina de trezentos capítulos sem muitos sobressaltos, porque nessa época todas as emissoras concorrentes da Globo se conformaram com o traço de audiência no horário.


Revista Rossi, fev. 2008




Pesquisa Fapesp, 146


Revista Livraria Cultura - 1001 Utilidades para livros


terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Revista Pesquisa Fapesp - jan. 2008

Folhinha - 5 jan. 2008

Revista AutoEsporte - dez. 2007

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

TAM Magazine #46 - Universo Corporativo - dez. 2007


TAM Magazine #46 - Col. Sonia Racy - dez.2007

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O Homem que amava demais

pássaro vermelho

coisas voadoras

terça-feira, 6 de novembro de 2007

TAM Magazine, nov. 2007 Universo corporativo


Capa para coletânea (não comercial) de músicas adultas para crianças (vol. 1 - Dia)

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Mix Tape Noite

Capa para CD-coletânea de músicas adultas para crianças, sem fins comerciais.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

As coisas mudaram, Babe, 1999

passarim - A História Aberta