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Texto de Arnaldo Branco

Alimentação saudável e programas de culinária estão na moda, mas não pela primeira vez. Houve uma atração televisiva que foi a primeira a exaltar as vantagens da comida natural, ensinando a prepará-la, e que fracassou por conta dos exageros de seu idealizador.

O programa "Não me coma, sou um ser vivo" surgiu no início dos anos setenta, na rebarba do movimento hippie que chegou aqui com atraso. Seu apresentador, um sujeito já um tanto entrado em anos para falar em nome da revolução jovem e com poucos cabelos para ornar com flores, se chamava Florêncio Silvestre. Ele mudou para algo que soava mais flower power, Flor Silvestre, o que lhe rendeu muitas piadas nos corredores machistas da TV Excelsior.

Tudo era muito radical. Era filmada em externas, e todos os objetos de cena eram tirados da natureza. A mesa era um tronco de árvore, os utensílios quase da pedra lascada; os produtores reclamavam que Flor levava o dobro do tempo de uma dona de casa média para picar salsinha. O patrocinador de "Não me coma..." era o Ceasa.

As receitas não pareciam muito apetitosas, mas ficavam em segundo plano em relação aos discursos de Flor contra os hábitos carnívoros. Ele fazia questão de apresentar o programa cercado de pequenos animais silvestres que interferiam comendo ingredientes. Os esquilos não raro o atacavam.

As únicas imagens feitas em estúdio, inseridas em um bloco entre duas etapas da receita do dia, eram vídeos educativos mostrando as verdades sobre o preparo de pratos convencionais: porcos sendo estripados, gansos vivos recheados por um funil inserido no tubo digestivo, o que criava o estranho efeito de um show de culinária que fazia perder o apetite.

A ruína de Flor foi o churrasco de confraternização da emissora, no fim do ano de 1972. Apesar de ter levado sua marmita de berinjela e uma braçadeira de luto pelos animais abatidos, sua pouca resistência a bebida fez com que se atracasse, delirando de prazer, com alguns quilos de picanha sanguinolenta. As fotos vazaram para a imprensa e a sua credibilidade foi a zero.

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